sábado, 2 de abril de 2016

[Análise] Pokkén Tournament


Após meses de fervorosa antecipação, Pokkén Tournament chegou a todo o mundo a 18 de Março e com este título, uma nova forma de batalhar. Enquanto treinadores, imaginar uma batalha entre Pokémon sempre foi um exercício de imaginação peculiar e naturalmente empolgante para além dos limites conceptuais e visuais do formato RPG de turnos que a série principal – mas não só – nos habituou. Desde há vinte anos a esta parte, a fórmula característica da série principal sempre marcou um standard de jogabilidade nas batalhas, elemento central e icónico dos jogos da franquia, reservando-se outros meios para complementar a imagem mental das mesmas, seja através imagética estática da manga como, de forma muito mais evidente, pela fluidez da animação na(s) série(s) anime, até hoje o único vislumbre legítimo de como seria o confronto entre treinadores e respectivos Pokémon numa base dita ‘realista’ na medida do possível.

Neste sentido, Pokkén Tournament muda de forma notória o paradigma ao qual as batalhas entre Pocket Monsters estavam restritas em termos de jogos. Pela primeira vez na história da franquia, somos presenteados com um título que permite, através das mecânicas de um fighting game, experienciar e desfrutar a essência primária – directa e imediata, sem turnos - de um duelo entre dois Pokémon aliada à imersão ímpar que caracteriza o género. A aposta da Pokémon Company em colaboração com a Bandai Namco - nomeadamente as mentes por detrás das séries Tekken e Soul Calibur - foi, desde a primeira hora, significativamente grande pelas implicações que estavam em cima da mesa ao juntar dois universos tão distintos sem fazer cedências de parte a parte que comprometessem a experiência de jogo, que se pretendia por um lado original ao introduzir Pokémon no género Fighting e, por outro tradicional quanto baste ao ponto de não desvirtuar a essência do que constitui um jogo do género, ou não fossem as séries supracitadas dois exemplos paradigmáticos dentro da categoria. Em termos básicos, garantir por um lado um fighting game original, bem estruturado e apelativo quer a nível casual como competitivo e, por outro lado, salvaguardar a essência da franquia Pokémon nesta transição, nos mais ínfimos detalhes.





A análise de Pokkén Tournament recai inevitavelmente neste binómio e talvez a questão mais pertinente a ser colocada – da qual depende significativamente o veredicto – seja saber de que forma este título consegue corresponder às expectativas dos jogadores mais exigentes, sejam estes treinadores ou entusiastas de ‘jogos de luta’. Ou ambos.

Em termos gerais e no que deixa transparecer desde o primeiro contacto, Pokkén Tournament define-se como como um título de apresentação simples e acessível mas que esconde uma complexidade inegável ao nível das mecânicas de jogabilidade e do indissociável factor competitivo que sustenta o apelo básico do jogo, como qualquer outro título digno do género. Desde o primeiro momento que o jogador começa a explorar o jogo é evidente o cuidado visual na apresentação de uma interface user-friendly, o que é particularmente relevante tendo em conta o público-alvo de Pokémon, não deixando de ser ao mesmo tempo fiel à estrutura simples de um fighting game. Partindo do ecrã do World Map, de onde o jogo se desdobra nas suas diferentes secções, a simplicidade da apresentação é evidente, sendo este um dos pontos positivos a assinalar.

Bem vindos à região de Ferrum!
O ecrã do World Map é o ponto de partida para explorar todas as secções de jogo de Pokkén Tournament.

Do ecrã do Word Map, que corresponde à vertente sul da região de Ferrum, exclusiva (?) do jogo, o jogador acede, como foi dito acima, às diferentes secções de jogo, definidas por cores concretas: My Town, Practice, Ferrum League, Single Battle, Online Battle e Local Battle. A acompanhar a progressão do jogador desde o primeiro momento, a sempre prestável Nia - por vezes até demais – faz as honras da casa e guia o jogador como assistente, explicado ao mais ínfimo pormenor as diferentes secções de jogo, dando dicas de estratégia e apoiando, literalmente, o jogador com Cheer Skills, a eleborar mais à frente.

My Town
My Town é a “central de comando” do jogador, onde este pode ajustar as opções de jogo, consultar os recordes e registos de batalha nos diferentes modos de jogo que Pokkén oferece e personalizar a experiência a vários níveis, desde a estética a estratégia.

Na secção de Profile, é possível personalizar o avatar de treinador, conferindo-lhe um toque pessoal e identitário que, entre outros atributos, define a persona do jogador no modo online. A customização do avatar é, em boa verdade, insana, embora se baseie numa palete de cores comum: penteados, roupa, acessórios e efeitos de fundo contribuem para uma notável diversidade de opções de personalização. Estes atributos podem ser comprados com Poké Gold, a moeda in-game que o jogador acumula mediante a participação em batalhas e a conquista de proezas concretas ou desbloqueados de forma aleatória através de Lucky Bonus no fim de algumas batalhas. Nia também pode ser personalizada embora apenas com conjuntos de roupa pré-definidos obtidos após a conquista de determinados feitos ao longo do jogo. A juntar à personalização estética, o jogador pode desbloquear títulos ao longo do jogo num sistema semelhante à aquisição de troféus/achievements que pode associar ao respectivo perfil, assim como frases de saudação/desafio da mais variada natureza.

"M'lady."

Na secção Pokémon, o jogador gere os atributos do Pokémon Parceiro (alternável) assim como dos Pokémon Suporte, uma das novidades de Pokkén Tournament. Os Pokémon Parceiro correspondem aos que compõem o roster do jogo, começando por ser catorze – Lucario, Pikachu, Pikachu Libre, Blaziken, Gardevoir, Sceptile, Gengar, Machamp, Braixen, Chandelure, Suicune, Weavile, Charizard e Garchomp - e terminando em dezasseis quando a estes se juntam Mewtwo e Shadow Mewtwo, durante e após o término da campanha Single Player. Aqui surge uma das críticas negativas óbvias ao jogo: o tamanho diminuto do roster em comparação com outros títulos do género, não obstante a hipótese viável de virem a ser acrescentados mais Pokémon ao roster – uma observação atenta do ecrã de escolha de Pokémon Parceiro dá a entender a hipotética existência de espaço para, pelo menos, quatro slots extra – através de DLC, gratuito ou pago.
No entanto não deixam de ser questionáveis as razões que levaram a criar um roster que, para todos os efeitos, é diminuto para os standards actuais dentro do género assim como as escolhas feitas em termos de representantes. A representatividade acaba por surpreender pelas escolhas feitas, umas praticamente naturais pela popularidade inerente a alguns dos Pokémon do roster ao passo que outras acabam por ser adições inesperadas e que, de certa forma e à primeira vista, parecem misplaced no tipo de jogo que é. No entanto não se pode alegar, em alguns casos, falta de originalidade como é o caso de um certo candelabro fantasmagórico. A pergunta inevitável que surge é “Num universo de mais de 720 Pokémon, não haveria melhores escolhas?”. Da mesma forma, levantam-se outras perguntas imediatas como “Porquê três Pokémon iniciais de Fogo e apenas um de Erva e nenhum de Água?”

Obviamente que a resposta a esta e outras perguntas semelhantes não é devida a este texto até porque acabaria por assentar em preferências pessoais, no entanto é de salientar que, se alguns Pokémon acabam por “encaixar” em Pokkén de forma digamos, “natural”, sendo a sua movepool amplamente conhecida e adaptável ao jogo, não deixa de ser verdade constatar que a adição de lutadores em tudo inesperados e “estranhos” acaba por providenciar um maior leque de opções de estilos de luta e, em última análise, de contribuir para uma maior variedade ao nível de estratégias e abordagens em termos da oferta do roster.

Este factor surge como um dos mais relevantes a assinalar por esta e outras razões. Se por um lado o roster de Pokkén Tournament é notoriamente minúsculo, por outro esta condição acaba por ser colmatada por um desenvolvimento aprofundado de cada Pokémon, sem excepções, pormenor de suma importância. Os dezasseis Pokémon Parceiro denotam um cuidado singular ao nível individual de forma a salvaguardar a originalidade de cada um assim como a garantia de que todos os representantes do roster são dramaticamente diferentes uns dos outros. Mesmo aqueles que se assumem como aparentes “clones” – Pikachu/Pikachu Libre e Mewtwo/Shadow Mewtwo – conseguem ser únicos por comparação apesar de partilharem atributos muito pontuais ao nível de movepool e técnica de combate. Este pormenor é notório desde logo no tipo de lutador que define os atributos de cada um – ex. Pikachu é Standard enquanto Pikachu Libre é Speed – Mewtwo é Standard enquanto Shadow Mewtwo é Technical – e na comparação dos restantes Pokémon e respectiva tipologia de combate.

Dezasseis Pokémon Parceiro, contando com os dois Mewtwos, desbloqueáveis na camapanha Single Player.
O roster é notoriamente diminuto mas o nível de execução de cada Pokémon compensa de certa forma este limite.

Em breves palavras, o jogador encontra em cada Pokémon Parceiro uma solução distinta de combate, podendo facilmente encontrar um ou mais Pokémon adaptados ao seu estilo pessoal. Caso encontre dificuldades em termos de matchup com um Pokémon adversário, o jogador consegue, com relativa facilidade mas sem esquecer o devido treino, encontrar uma alternativa no roster para efeitos de compensação. A profundidade de desenvolvimento de cada lutador permite e motiva quer a especialização como a alternância, levando o jogador a procurar conhecer todos os Pokémon que tem à disposição de forma a definir um ou mais Pokémon principais e eventualmente secundários. Tendo este factor e a sua cuidada e funcional execução em conta, pormenores como o tamanho do roster ou as escolhas de Pokémon para nele figurarem tornam-se, em boa verdade, irrelevantes. À medida que o jogador treina e explora a jogabilidade dos diferentes Pokémon Parceiro, torna-se inevitável constatar a natureza legítima de cada um neste campo. Desde que foi anunciado, uma das questões pertinentes que se levantou relativamente à transição de Pokémon para um fighting game assenta precisamente na forma os Pokémon escolhidos seriam fieis a si próprios.

Por outras palavras, até que ponto os Pokémon seriam de facto fieis ao seu movepool e, por esta via, adaptáveis a um género nunca antes explorado na franquia. A resposta torna-se evidente com o treino e é deveras gratificante pois a uniqueness de cada Pokémon também se revela na maneira como estes aplicam golpes e técnicas que lhe são naturais em proveito da uma jogabilidade fluida e acima de tudo, funcional. Todos os Pokémon Parceiro apresentam signature moves que os caracterizam assim como golpes únicos para além dos golpes base comuns a todos. A transição do combate de turnos para os inputs de um jogo de luta está magistralmente bem conseguida e é provável que esta “garantia de autenticidade” seja uma das razões que levou a optar por um roster pequeno. Ao número diminuto de Pokémon parceiros, os devs de Pokkén respondem com Pokémon autênticos e fiéis a si próprios, minuciosamente trabalhados para encaixar nas arenas sem desvirtuamento do que os define no tradicional combate por turnos da série principal. No entanto, compreensivelmente, não é possível atribuir Technical Machines aos ditos cujos nem tão pouco desbloquear novos golpes personalizados. “What you see is what you get” no entanto o exercício de descobrir totalmente um Pokémon de forma a conhecê-lo a fundo dispensa alternativas de jogabilidade pelo inerente desafio que representa.

A Mega Evolução caracteriza o modo Synergy Burst dos Pokémon em que é aplicável.
Os melhores resultados no final de cada batalha são, naturalmente, os que geram mais Poké Gold e pontos de experiência para a barra se Skill Points.

O último atributo relacionado com os Pokémon Parceiro é a alocação de Skill Points. Estes Skill Points representam um dos pormenores mais relevantes do jogo pois permitem moldar os Pokémon do roster de uma maneira preferencial para cada jogador, seja para corresponder a um estilo de jogo em particular como para efeitos de compensação em termos de atributos técnicos, por exemplo, investir pontos de modo a reforçar atributos que a classe – Standard/Speed/Power/Technical – de determinado Pokémon tem em falta. Por exemplo, aumentar os atributos de Defesa de um Pokémon da classe Speed de modo a este não ficar exposto em termos defensivos onde a dita classe está mais vulnerável, entre muitas outras combinações. 

As atribuições de pontos surgem naturalmente à medida que o jogador conhece melhor as vantagens e desvantagens inerentes ao Pokémon que usa. Factor positivo na gestão dos Skill Points é estes serem amovíveis (apenas dentro de um Pokémon, não sendo transferíveis para outros) e não ficarem trancados no momento da atribuição nos quatro campos técnicos do Pokémon – Ataque/Defesa/Synergy/Estratégia – pelo que o jogador pode, a qualquer momento deslocar pontos de um campo para o outro de modo a colmatar os atributos que entender serem preferenciais para determinado Pokémon. Positivo é também constatar que é possível acumular Skill Points no fim de cada batalha, em praticamente todos os modos de jogo, da Ferrum League ao online ou mesmo Single Battles. Nenhuma batalha é em vão e todas, terminem em vitória, derrota ou empate, contribuem com pontos de experiência para uma barra de progresso que, uma vez preenchida, desbloqueia uma unidade de Skill Point, sendo que a progressão na Ferrum League acaba por ser o método mais rápido para garantir estes preciosos pontos e para conhecer os prós e contras do Pokémon Parceiro.

Individualmente, cada Pokémon recebe Skill Points no final das batalhas. 
Volvidas muitas batalhas, os Skill Points começam a fazer a diferença na construção técnica de cada Pokémon
e são alocáveis a qualquer momento.

Seguem-se os Pokémon Suporte, definidos por duplas em mais de uma dezena de sets pré-definidos e desbloqueáveis durante a campanha Single Player. Tal como os Pokémon parceiros, estes podem ser definidos na secção de My Town. Como o próprio nome indica, estes Pokémon servem de assistência ao jogador durante as batalhas, actuando das mais diversas formas em benefício do jogador: Dar dano ao adversário, criar aberturas para contra-ataque, afastar ou puxar o adversário, conferir mais energia à Synergy Gauge de forma a esta encher mais depressa e possibilitar o o modo Synergy Burst, etc.

A utilização dos Pokémon Suporte não é obrigatória (tal como o Synergy Burst) no entanto estes conferem ajudas preciosas durante o combate quando usados no timing adequado e sempre que possível em complementação ao estilo de luta do Pokémon Parceiro. Escolher os Pokémon Suporte certos para determinado lutador/adversário pode fazer a diferença entre a vitória ou a derrota e não é de descurar o estudo adequado destes ‘ajudantes’ de modo a tirar o melhor partido deles em benefício próprio. No entanto esta mecânica tem tanto de inovador como de falha dada a impossibilidade de definir sets personalizados. O jogador pode definir três sets por defeito antes de cada batalha e alternar – ou não - entre os dois Pokémon do set escolhido entre as rondas da batalha. Ao levar as batalhas mais a fundo, é natural o jogador encontrar Suportes preferenciais de forma a complementar Pokémon X ou Pokémon Y (no pun intended) do roster. Eventualmente, a personalização de sets permitiria levar este processo mais a fundo, podendo o jogador definir os Pokémon Suporte nos pares mais adequados ao estilo de jogo pretendido. Esta opção simplesmente não existe e acaba por ser um shortcoming notório e francamente estranho num jogo que em tudo procura flexibilizar a abordagem e aprendizagem do jogador para um melhor desempenho face aos adversários.

O jogador pode definir três sets de Pokémon Suport activos e usar os dois Pokémon de cada set em batalha. No entanto a impossibilidade de definir os pares preferenciais é uma falha evidente desta útil e relevante mecânica de jogo.

Por último, na secção My Town, temos os Cheer Skills da Nia já mencionados, acessíveis através das opções de Advisor. Esta funcionalidade permite o incremento de determinados atributos durante uma batalha, em moldes semelhantes aos de alguns Pokémon Suporte, podendo actuar em “sintonia” com estes para efeitos mais imediatos e eficazes. Actuam em diferentes campos e em condições distintas, nomeadamente rondas e em função de vitórias/derrotas em cada uma e dependendo da escolha permitem rentabilizar atributos em função do que é mais útil ao jogador. Por exemplo, o Cheer Skill de Synergy permite encher mais rapidamente a Synergy Gauge em todas as rondas, independentemente se o jogador venceu ou perdeu rondas. Já a de Pressure permite uma Synergy Gauge rapidamente preenchida na última ronda, o que permite por um lado um jogo de pressão maior nessa ronda, sobretudo para Pokémon cuja Synergy gauge requer mais tempo/golpes para preencher. Já a de Cheer Skill de Suporte faz com que a Support Gauge seja preenchida mais rapidamente a partir da segunda ronda, um atributo útil para o jogador mais técnico que faz uso recorrente de Pokémon Suporte até porque, da mesma forma que a Synergy Gauge demora a ser preenchida em determinados Pokémon, a disponibilização dos Pokémon Suporte também varia consoante o Pokémon escolhido.



De My Town transitamos para a de Practice, legitimamente colocada no World Map sobre Techna City ou não fosse o espaço privilegiado para descobrir e treinar as técnicas de combate à disposição do jogador. Naturalmente, trata-se de um espaço de aprendizagem e de frequência aconselhada a todos os jogadores que querem levar o jogo a um outro patamar de exigência técnica. Esta é aliás a primeira secção que o jogador conhece ao entrar pela primeira vez em Pokkén Tournament devido ao Tutorial que aqui se encontra. O foco na aprendizagem é constante em Pokkén e é aqui que se torna mais evidente pois coloca à disponibilidade do jogador, de forma organizada, os diferentes campos de treino, motivando-o a conhecer e melhorar a técnica dos diferentes Pokémon, desde o modo Free Training onde se pode escolher o Pokémon adversário e respectivos Pokémon Suporte para treino livre, ao Action Dojo onde se podem treinar os golpes e sequências básicos de um Pokémon, terminando no Combo Dojo onde os Pokémon se “desdobram” em combinações de golpes e follow-ups que, em última análise, correspondem ao estado mais avançado do treino. Uma secção a não descurar e a visitar com frequência, se o objectivo passar por conhecer a fundo determinado(s) Pokémon.



  
Modo Free Training

Do treino para a secção da campanha Single Player, a Ferrum League. A história do jogo desenvolve-se ao longo das diferentes Ligas que compõem a Liga maior que recebe o nome da região e é através deste modo que se progride na história e se desbloqueiam os mais diversos elementos já mencionados anteriormente, desde Pokémon Suporte a Cheer Skills sem esquecer títulos e adições ao roster até então trancadas. A história em si, narrada através de um formato de visual novel típico de RPGs japoneses, não sendo propriamente complexa e extensa em narrativa, condensa elementos interessantes ao nível de lore que poderão ter repercussões em toda a franquia, de maneira que quem estiver disposto a ler nas entrelinhas, pode descobrir em Pokkén Tournament alguns elementos interessantes a considerar na big picture de Pokémon mas fica ao critério de cada um descobrir e considerar o impacto desses mesmos elementos.

A eliminatória da Elite 8  que antecede o Mestre da Liga, neste caso na Red League.

Em termos objectivos, a Ferrum League divide-se por cinco Ligas, cada uma correspondendo a um rank concreto, começando pelo Rank D e terminando em S. Ao contrário do que seria de esperar, as Ligas de rank mais baixo são aquelas que reúnem o menor número de treinadores CPU. A Green League, a primeira, conta com vinte treinadores que o jogador é obrigado a enfrentar de modo a transitar para a liga seguinte, que duplica o número de participantes e assim por diante, na mesma proporção, até à última liga que reúne nada mais nada menos que cem participantes. Não se trata portanto de “filtrar” treinadores CPU e de “afunilar” o ranking até chegar a uma liga que reúne uma “elite” restrita de treinadores. Pelo contrário, quanto mais o jogador avança, mais adversários tem de enfrentar de modo a superar cada uma das ligas e tendo em conta que o nível de desafio aumenta exponencialmente à medida que se sobe nas Ligas, resta imaginar o que será enfrentar a última liga, tendo de avançar arduamente por uma “Victory Road de cem treinadores, enfrentar uma eliminatória de “Elite 8” onde o jogador se integra e por fim o Mestre da Liga, seguido da batalha de promoção para a liga seguinte. Eventualmente o jogador acaba por enfrentar o Campeão da Liga de Ferrum, depois de uma longa e exigente prova de perícia. Preparem-se para suar porque se é verdade que as Ligas mais baixas são relativamente acessíveis, a exigência das ligas mais altas é evidente, pormenor que é tão ou mais enfatizado pela “legião” de treinadores que o jogador tem de enfrentar até alcançar o lugar cimeiro do pódio da Ferrum League e uma inteligência artificial eximiamente calibrada.

Elinn, Mestre da Red League.

Por último, restam as três secções de batalha no World Map: Single Battle, Local Battle e Online Battle. Em Single Battle, o jogador enfrenta adversários CPU em batalhas nos modos Basic Battle e Extra Battle onde pode calibrar o regulamento em determinados parâmetros: Dificuldade, rondas, tempo, Synergy ligada ou desligada, etc. Linear e directo, estes modos servem sobretudo como sessões de treino no quais o jogador tem total controlo do regras de batalha. Este modo é particularmente indicado para aprender a lidar e controlar a mecânica das Phases, que representa talvez a mais relevante novidade introduzida pelo jogo, definindo-se pela alternância entre a Field Phase de arena livre e a Duel Phase com perspectiva pseudo-2D. A movepool de cada Pokémon muda quse a 100% com a transição entre ambas a fases e cada uma obriga a diferentes estratégias dentro de um só turno, pelo que o controlo da mecânica de fases é inegavelmente relevante e de suma importância para qualquer jogador que tenha o objectivo de ser um “mestre” de Pokkén.

Segue-se a secção Local Battle que, como o próprio nome indica, permite que dois jogadores disputem batalhas em modo local. O recurso ao Gamepad da Wii U é obrigatório para um dos jogadores (o nº 1), que terá de o usar quer como controlador e ecrã de jogo ao passo que o segundo jogador deve recorrer a um controlador listado como compatível com Pokkén Tournament, servindo-se da TV/ecrã em que a Wii U está ligada como perspectiva de jogo. Em modo local, o framerate baixa para os 30fps. Este decréscimo de frames, longe de ser o ideal para um jogo desta natureza, não torna a experiência de jogo propriamente proibitiva. Há no entanto a hipótese de ligar duas Wii U em modo LAN de forma a jogar em modo local, garantindo desta forma 60fps a ambos os jogadores, com toda a fluidez de jogo possível.

Lucario a utilizar o seu signature move, Aura Sphere.
A transição harmoniosa e funcional das movepools de cada Pokémon dos típicos turnos para o exigente ambiente competitivo um jogo de luta é, sem dúvida, uma das maiores proezas técnicas de Pokkén Tournament.

Em Online Battle o jogador e os seus Pokémon apresentam-se ao mundo, sendo aqui que podem encontrar e batalhar com outros treinadores de todos os “cantos” do globo. O online de Pokkén divide-se em dois modos, Friendly Match, o modo amigável para batalhas com amigos da Wii U ou jogadores aleatórios na internet e o modo Ranked Match, de vertente mais competitiva, para os jogadores que pretendem elevar a fasquia do jogo a patamares de maior exigência. Neste modo, os jogadores competem pelos melhores lugares do ranking mundial de jogadores e obtêm títulos de rank em função do estatuto que alcançam na ladder competitiva. O modo ranked distribui resultados em duas listagens distintas, uma com base em número de vitórias (Win Ranking) e outra com base em pontos acumulados (Point Ranking).

Comum a outros modos de jogo mais com maior impacto no online, o rácio de vitórias (Win Ratio) é omnipresente e está à vista de todos. Na sua essência representa, juntamente com os títulos de rank, a reputação do jogador, sendo como que um “cartão de visita” com base na habilidade individual. Dependendo da prestação, tanto pode ser gratificante se a percentagem for confortavelmente elevada como embaraçoso se as derrotas forem superiores às vitórias, o que contribui para uma baixa percentagem. É uma estatística imediata, mutável e de certa forma implacável mas, dependendo da prestação do jogador, representa uma meta constante a manter, superar ou melhorar, pelo que serve de constante incentivo a uma boa prestação a a um cuidado redobrado na imagem que o jogador transparece no online. Afinal, quem não gosta de ficar bem na fotografia?

O espectáculo visual é garantido, seja pela magistral execução dos efeitos visuais como pelo detalhe colocado em cada stage, o que confere a cada arena uma ambiência única.

Antes da conclusão, uma derradeira nota para a apresentação visual e sonora do jogo. Graficamente, como está à vista de todos, Pokkén Tournament é irrepreensível na escala de detalhe e realismo colocado no mundo do jogo, sobretudo nos modelos tridimensionais de cada Pokémon. Nunca os Pocket Monsters, nomeadamente os Pokémon que integram o roster, foram tão legítimos em termos de representação realista. O nível de detalhe dos modelos tridimensionais é assombroso, desde texturas a proporções e demais anatomia. Da mesma forma, os cenários que compõem as arenas de combate são ricos e detalhados – apesar de alguns terem falhas pontuais incompreensíveis, como público humano pouco detalhado que mais parece um conjunto de cutouts publicitários em certas arenas – onde luminosidade e efeitos criam atmosferas únicas em cada arena. Nos combates propriamente ditos, os efeitos provocados pelo combate e pelos golpes dos diferentes Pokémon – por exemplo, o efeitos e partículas de fogo provocados pelos Pokémon deste tipo - são um regalo para os olhos e providenciam um espectáculo visual ímpar. Neste aspecto o cuidado em criar ambientes de combate únicos é notório e em tudo fantástico.  A vertente sonora também não foi descurada e Pokkén Tournament apresenta uma banda sonora recheada de sonoridades diversificadas, tão variadas como as arenas que representam, sendo muitos dos temas musicais autênticos clássicos adiantados. Quem não fica com o tema de Magikarp Festival no ouvido?

O nível de detalhe dos modelos 3D de cada Pokémon (sobretudo texturas) e das arenas é definitivamente digno de nota.

Conclusão: Pokkén Tournament é, em tudo, um título surpreendente apesar de simples em estrutura. A simplicidade com que se apresenta esconde um jogo aprofundadamente denso que tem tanto de acessível a jogadores novatos como de desafiante e familiar para jogadores experientes no género. A organização exemplar do jogo motiva não só á aprendizagem desde o primeiro momento – garantindo as condições para tal - como o treino contínuo e a descoberta de cada Pokémon em proveito do(s) estilo(s) e preferência(s) de cada jogador. Cada Pokémon é único e minuciosamente construído, exigindo diferentes graus de dedicação quando se trata de conhecer a fundo cada elemento do roster, apesar de todos partilharem bases comuns. 

Relevante é também é também a legitimidade que todos os Pokémon partilham, sendo fieis ao que são nesta transição para o género fighting, sendo este um dos maiores desafios que rodeavam o desenvolvimento do jogo. Pode-se dizer, sem receio, que este desafio foi plenamente superado e constitui um dos elementos de autenticidade mais gratificantes que se pode testemunhar em Pokkén, para regojizo e incentivo de qualquer treinador, sobretudos os que não estão familiarizados com o género. Do modo de treino à campanha Single Player sem esquecer o online, Pokkén Tournament é um diamante em bruto que se trabalha com tempo e dedicação até à possível perfeição, providenciando os meios para cada jogador crescer em termos de habilidade e destreza. 

Não obstante as limitações e os pontos negativos que apresenta, é um jogo sólido nas suas mecânicas e representa um desafio constante aos mais diversos níveis, abrindo desta forma um precedente bastante positivo para um eventual Pokkén Tournament 2 – afinal sequelas são um fenómeno natural no género - que venha a melhorar e expandir a experiência com a qual fomos presenteados. Há certamente muitas arestas a limar. Dito isto, Pokkén Tournament é definitivamente uma experiência segura quer para treinadores como entusiastas do género, uma fusão de dois mundos que não só resulta como surpreende e revoluciona a vários níveis, sem desvirtuar a essência e a identidade das raízes de cada um. Não é todos os dias que podemos testemunhar este fenómeno, sobretudo quando se trata de um título inédito e com tanto a provar. 

Pokkén Tournament chegou e venceu.




Sem comentários:

Enviar um comentário

Shaymin Pokeball