sexta-feira, 3 de junho de 2016

[TCG] Entrevista a Filipe Cardoso

PCB – Começa por falar um pouco de ti, uma espécie de autobiografia da tua vida até agora.
Olá leitores do PCB, tudo bem? Bem, a verdade não sei muito bem o que dizer aqui! Tenho 23 anos, sou estudante de Engenharia Biomédica no IST (quase quase formado!). Além de jogar, gosto bastante de ler, de viajar, e de cinema, já passei por bastantes hobbies desde diferentes desportos, faço (vou fazendo) voluntariado, e mais recentemente abri uma loja de TCGs :P


PCB – Como entraste no circuito competitivo do Pokémon TCG?
Já entrei há bastante tempo, em 2005, estava no 8º ano... Pensando bem, passei quase metade da minha vida a jogar Pokémon competitivamente! Na altura comecei a jogar na minha escola com o Bernardo Mocho, meu colega de equipa ainda atualmente, e o irmão, Eduardo. Descobri, não me lembro bem como, que existiam torneios na Devir Arena. Ia haver uma pre-release, de Unseen Forces (grande set, por acaso!) e eu e o Eduardo fomos ao torneio naquela de obter as cartas novas e conhecer pessoal novo. Acabámos por fazer 1º e 2º, e percebemos que afinal eramos bons naquilo, além do facto de as pessoas serem extremamente simpáticas e do ambiente ser super porreiro! Voltámos para a liga no fim de semana seguinte, fomos ficando, e pronto...


PCB – Qual o momento que consideras como o mais relevante na tua carreira?
A nível de resultados, não um momento, mas 2009 foi claramente o meu ano de ouro e no qual sinto que cresci mais como jogador: ganhei o Nacional depois de muita preparação e um torneio super intenso com discutivelmente a minha carta preferida de sempre: Dialga G. Foi uma sensação excelente depois do 2º lugar de 2008 (em que nem cheguei a jogar contra o campeão; eram Nacionais só Swiss). Dois meses depois faço um score de 6-1 no meu primeiro Mundial após ganhar ao campeão em título na altura Jason K. na 2ª ronda, perdendo a primeira ronda pelo que considero nervosismo. Perdi no top 32 para quem se viria a tornar campeão esse ano num dos matches mais intensos da minha carreira, que acabou com o nosso table judge a dizer-me “Well played”. Dei o meu melhor, não ganhei, mas soube quase a isso.
Menção honrosa para a passagem do LCQ em 2010, indo x-1 também, onde em mais de 120 jogadores entravam 8 no mundial. Fui 3º!

PCB – E a situação que te deixou mais frustrado?
Bem, nesse ano, apesar do resultado, deixou-me um sabor a azedo ficar a uma ronda de um prémio monetário, considerando quão bem joguei esse torneio. Mas a maior frustração deve ter sido quando fui jogar ao Nacional Austríaco. Sabia que tinha todas as hipóteses de ganhar o torneio, mas um conjunto de maus matchups, má gestão de tempo (foi o ano em que os empates foram implementados no jogo, e só tinha jogado em mais um torneio esse ano, logo não estava preparado para eles), e o que considero más decisões por parte dos judges impediram-me sequer de entrar no top. Nem foi um dos casos em que posso dizer que joguei mal ou fui mal preparado. Foi um torneio em que a vida me disse “esta vitória não é para ti”, e tive de engolir o sapo.

PCB – Conta-nos uma história engraçada que possas partilhar connosco.
Talvez uma história in-game: há várias, mas uma das que mais me marcou foi no Last Chance Qualifier de 2010. O LCQ era um torneio que já não existe, realizado na 6ª feira véspera ao Mundial, cujo objetivo era dar uns últimos lugares de entrada no mundial para quem não estava qualificado. Acontece que em 2010 eu não tinha o convite, logo fui, com bastantes outros lusitanos, jogar nesse torneio. Levei Luxchomp, deck dominante na altura, e na primeira ronda apanhei um mirror. Dominei facilmente o jogo, tendo 1 prémio para cinco do meu adversário. Confiante, deixei-o jogar contando levar o jogo no turno seguinte... Até que ele baixa um Entei Raikou Legend, usa o Bronzong G para mexer uma energia para ele, e eu olho para o meu campo: tenho cinco Pokémons com Poké-Powers com 80 de vida (para quem não jogava, o ERL descartava duas energias para dar 80 a todos os Pokémon com Poké-Powers em campo). Tremi, pensando no misplay que tinha feito: podia ter retirado um dos meus Pokémon do campo com Pokéturn, mas nenhum português jogava ERL no Luxchomp dele e esqueci-me que a carta existia... Não vou perder, mas ele vai levar o jogo a morte súbita e o meu controlo vai por água abaixo...
Ele baixa um Uxie, dá setup, compra cartas, eu tremo, gasta cartas e dá outro Uxie, e ele pára. Depois de cerca de meio minuto sem fazer nada, pergunto-lhe “falhaste a energia, não foi?”. E ele diz-me que sim. O meu coração voltou a bater normalmente, e consegui ganhar o jogo no turno a seguir. Ufa!
Há muitas outras histórias, especialmente fora de jogos, que têm de ficar em segredo... só vividas!


PCB – Quem consideras que seja uma inspiração para ti dentro da comunidade e porquê?
O Gonçalo Ferreira é uma pessoa no qual penso bastante quando faço decks e me preparo, pois penso na forma dele de abordar o jogo: quando percebe que um deck é bom, dedica-se imenso a ele e prepara-se mentalmente para a board de decks existentes. É algo que sinto que se foi de certa forma perdendo com o acesso muito fácil à informação e listas na internet, infelizmente... Acho muito bom haver alguém que ainda o faça, pois ainda acho que é a melhor forma de obter bons resultados. Pensar no sucesso dele ajuda-me a manter os pés assentes na terra, quando me frustro e tento experimentar vários decks a ver se acerto num, ao invés de focar-me em aprender bem um deck. Às vezes perdemo-nos no mar de decks existentes por aí e não aprendemos a jogar bem com um, que é o que faz mais sentido.
O Igor é sempre uma inspiração devido aos resultados que atingiu, ao facto de quando tenho dúvidas se um “Português aleatório como eu consegue fazer um resultado excelente este ano”, lembro-me dele e que é óbvio que é possível. Ele, e também o Paulo Silva e o Gonçalo Pereira, são as provas de que podemos fazer tudo, ajudam-me a ultrapassar estas inseguranças.
O Bernardo Dias também é uma inspiração, devido ao seu sempre bom humor e ideias diferentes, que alia a uma grande capacidade de jogo. É de longe dos jogadores que mais vi crescer durante o meu tempo no jogo. Conheci-o como tenro sénior, por isso o crescimento foi também literal (tinha cerca de metro e trinta de altura ao invés dos quase dois que tem agora! O tempo passa.). O Bernardo está sempre disponível para ajudar novos jogadores e é sempre alguém com quem gosto de estar, sendo a essência viva do espírito de entreajuda e comunidade.
Para além disso, todos os jogadores que continuam no jogo porque o adoram, apesar de irmos tendo menos torneios com o passar do tempo, também me trazem um grande sorriso aos lábios!

PCB – Qual é o aspeto que se deve ter mais em conta para se ser um bom jogador?
Acho que primeiro é conheceres a tua lista de trás para a frente. A razão de cada carta estar lá, com o número de cópias que tens, e quando usar cada uma e contra o quê.
Depois aplicar isso: ter planos definidos com o teu deck contra os diferentes decks dos formatos. No entanto, considero que esta skill foi sendo substituída pela capacidade de optimizar as tuas jogadas de acordo com a posição de campo e recursos usados, tanto por ti como pelo teu oponente. Antigamente os jogos eram mais lentos e não havia desperdício de recursos (como Ultra Ball e Sycamores hoje em dia, por exemplo), e à partida ias usar os teus recursos todos. Ainda assim, acho que a importância desta capacidade se mantém.
Finalmente, e isto é o que define um bom jogador de um excelente: ver todas as mais pequenas opções de vitória. Se isso implica um last ditch paralyze flip, um lysandre stall, ou N’s quando ele tem pouquíssimas cartas no deck, seja. Se te dá uma probabilidade de ganhar, fá-lo.


PCB – Que deck tens gostado mais de jogar em Standard e porquê?
Ora, honestamente, não te consigo responder a esta pergunta... Todos os meus CP’s foram obtidos com decks diferentes, e gostei de jogar com todos eles (exceto Toad Tina, porque o deck é bastante forte, mas podes jogar perfeitamente e perder porque falhas moedas. O deck depende muito das SSU... Mas isto é um à parte).
Vou no entanto arriscar e dizer que o que mais gostei foi Fairytina, porque tinha muitas opções, e foi em grande parte um homebrew dá um prazer especial. Além disso, a Aromatisse é uma carta genial. Em 2º lugar, talvez o Manectric Bats, porque era versátil, fortíssimo, e deu-me alguns dos jogos mais intensos.

PCB – Foste o jogador português com mais CP conquistado esta temporada. Que balanço fazes da tua prestação nesta época?
Bem, na verdade, acho que tenho que dizer que foi uma excelente prestação até agora, melhor que a que eu esperava para mim próprio...
No início da season propus ao Bernardo Mocho que iríamos obter o convite e deixar o jogo até ao Mundial, pois tínhamos os dois imenso trabalho para fazer este ano. Eu obtive o convite antes dele, por isso fui participando nos torneios na mesma de forma a não só testar com ele mas ajudar em pairings, etc. Aconteceu que os pontos foram acumulando, pronto. Houve um número de fatores que permitiu que, ao contrário do esperado, me pudesse dedicar bem ao jogo, como abrir uma loja de cartas, e a pressão para ajudar o Bernardo a fazer os pontos que faltavam. O testing constante ao longo do ano trouxe frutos, por isso treinem, compensa! Sei que foi isso que me permitiu ir tão bem preparado para os torneios que joguei durante o ano.

PCB – Além de ti, quem consideras que mais cresceu nesta temporada?
Tu, o Telmo, e o João Joaquim, não digo o Óscar porque ele já tinha resultados bons. Vocês os três foram quem mais subiu de resultados “porreiros” para tops consistentes ou muito perto disso. A ti não te conheço tão bem, mas os outros dois sinto que ganharam uma visão de jogo que não tinham em anos anteriores, e notou-se a diferença. Parabéns aos três J

PCB – O que achas que serão as melhores jogadas para o Nacional?
Ó rapaz, bato a cabeça todos os dias a tentar responder a isto... Infelizmente, não te sei mesmo dizer. Vou só dizer que March é sempre sólido, e suponho que haja muitos, assim como Greninja e provavelmente Turbo Toads, depois da performance sólida na Alemanha.

PCB – Se tivesses de prever, quem crês que ficará no Top 8 este ano?
Vou desde já dizer que não irei prever um top, mas quero apenas mencionar quem sinto que tem boas hipóteses de lá estar. Há bastantes jogadores que sei que poderão fazer parte, desde as caras conhecidas como os Gonçalos (Ferreira e Pereira), que mesmo que não entrem todos os anos têm uma excelente consistência, o Paulo Silva, o David Ferreira, campeão em título e sempre grande jogador, o Bernardo Dias, que joga sempre de forma sólida durante o ano mas liga o nitro durante o Nacional, o Bernardo Mocho, se conseguir marcar presença, o Pedro Barbosa, que regressou o ano passado em completa força e ainda não parou (tenho um grande respeito por este jogador), o Óscar Batalha, que tem feito grandes resultados nos últimos tempos e tem tudo para levar isso para o Nacional; entre outros.
Menções honrosas para ti, que acho que tens todas as possibilidades de fazer um bom resultado; logo se vê o que o dia te trará. Também para o Telmo e para o João Joaquim, pelas razões mencionadas acima.
Espero também, muito sinceramente, ficar no top e subi-lo, porque uma vitória no Nacional mete-me em grande posição de ficar no Top 22 da Europa, que me dará viagem e estadia para o Mundial pagos pela TCPi. Infelizmente, devido ao número reduzidíssimo de torneios ao longo da season, sou o único com sorte suficiente para estar nesta posição. Com isto não quero dizer que ache que sou melhor que os jogadores que mencionei acima, de todo: tenho é uma motivação diferente, a hipótese da (muito relevante) ajuda financeira, especialmente para quem tem de atravessar um oceano e um continente inteiros.
Tenho a certeza que irão haver surpresas no dia, e logo se verão quais (quem) são.

PCB – Quais são as tuas expetativas para o Mundial?
Quero mesmo trazer um resultado grande do Mundial este ano. Estou-me a dedicar bastante ao jogo, e sei que com trabalho suficiente consigo trazer para casa um top no dia 2, ou muito perto. Quer dizer, acredito que sim, e se eu não acreditar em mim, quem acredita?!
Acima de tudo, tenho a expectativa de me divertir imenso! O Mundial é sempre uma experiência fantástica, e não vou a um desde 2013. Tenho saudades de amigos que conheci lá fora e que quero rever, assim como tenho saudades de todos os momentos de diversão que passamos entre tugas!

PCB – Deixa uma mensagem para os leitores do Poké Center Blog.
Não sei se há bastantes leitores do blog que estejam a pensar pegar no TCG, mas gostaria de propor que, para quem ainda não deu uma oportunidade ao jogo, que desse! É extremamente divertido, fiz grandes amizades e criei muitas memórias, como viagens, ao longo dos anos graças a ele. Posso afirmar veemente que a minha vida não seria a mesma se não jogasse.
Para quem já joga, continuem a acreditar e a manter vivo este jogo e comunidades tão brutais!

Até à próxima, espero que pelo menos até ao Nacional!

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